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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Quando o nosso time perde

Quando o nosso time  perde, acordamos com a boca seca e precisamos espremer a cabeça por meio segundo, até que lembramos a lambança do dia anterior e afundamos a cara no travesseiro, enquanto nossa língua de lixa tenta umedecer os beiços. A manhã seguinte é uma porcaria quando o nosso time perde. O despertador é uma repetição fúnebre do apito final da partida. Mas, amargura à parte, todos temos escolhas quando o nosso time perde. Menos ele.
Quando o nosso time perde podemos pegar o caminho da banca de jornais ou optar pelo trajeto inverso, para fugir do berro das manchetes e da piadinha do jornaleiro. Podemos sair pela garagem do prédio, para driblar o porteiro, inimigo vil nesses dias. Podemos, se formos sortudos, fingir uma doença e faltar compromissos, ou nos esconder sob o guarda-chuva (por que sempre chove quando o nosso time perde?). Podemos, mesmo, vestir o uniforme e contra-atacar, ou escolher atirá-lo no fundo da gaveta. Mas há uma pessoa que não tem alternativas. É aquele senhor mulato, postura de bom de briga, olhar duro e fala cordial. Trata-se do porteiro do nosso clube.
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Ali dentro dos muros, os demais funcionários se movimentam devagar, entre suspiros e silêncio. “Os suspiros tornavam maior o silêncio, o silêncio tornava mais profundos os suspiros”, reparou Mário Filho certa vez, após uma derrota que virou célebre crônica. Já o bom vigia não pode se esconder. Defensor do portão e da honra do time humilhado, para ele é proibitivo baixar a guarda. Exposto à rua, ele sofre calado enquanto ouve o som de buzinas, motores de carro e apitos, e de vez em quando…
– Ô braço! Aí dentro vende a camisa do meu time, esta aqui lindona?
Sem se alterar, o sentinela escuta o engraçadinho na janela do carro. Há décadas é bombardeado com piadas parecidas, muda apenas o palhaço. A resposta sai automaticamente como um bom-dia, e os olhos nem se arregalam quando diz:
– Tem sim, fica ali no banheiro… Você tem que ver como o pessoal usa.
Ficamos imaginando as vestes do adversário no W.C. do clube. O provocador também, pois fecha a cara, ensaia xingar, mas o tráfego volta a fluir. Pouco depois, se aproxima o caminhão da Comlurb. O sinal fecha. O gari dependurado lasca de lá:
– Tá bonito o clube, hein! Já o time de futebol
– E qual é o seu time? Ah, logo vi, você está no caminhão certo…
O sinal abre e o profissional de limpeza se afasta, furibundo.
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Não é fácil reagir à derrota. Quando o nosso time perde sentimos a dor de uma traição. Fizemos tudo certo, demos amor, nos devotamos, e ele mesmo assim nos traiu, e na frente de todo mundo. E o pior, com o Luis Roberto narrando. Mas o porteiro de clube sabe lidar com a dor-de-corno com a fibra e a postura que nunca tivemos nem teremos. Não dá pinta, não dá escândalo. Tampouco chama o rival para a briga ou choraminga no ouvido de quem passa por sua roleta ou cruza de bicicleta o portão sagrado do clube.
Quando nosso time perde, exigimos reforços, gritamos que ninguém presta, do goleiro ao ponta-esquerda. Ao passar pela porta do meu clube, temos um consolo: fora do gramado, do porteiro ao presidente do clube, estamos muito melhor do que há uns anos.

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