Não conheço uma pessoa neste mundo que goste da derrota, que a celebre e se envaideça dela, que chegue em casa e reúna toda a família para contar a todos o espetacular fracasso vivenciado no trabalho, e que saia para comemorá-lo com brindes e festejos. Aliás, não conheço uma criança que tenha recebido como nome “Derrota da Silva”. Do outro lado, cartórios registram diariamente uma enormidade de bebês chamados Vitória. A vitória é a prima rica da derrota. A vitória recebe todas as atenções, mesuras e palminhas nas costas. Para a vitória, tudo.
Logo, não poderia, em sã consciência, comemorar a derrota para o Flamengo nesta noite de quarta-feira goulariana. Seria um disparate agradecer aos rubro-negros o favor a nós prestado ao aplicar-nos um sonoro 2 a 0 em pleno Mineirão, diante de mais de 30 mil alvinegros, numa noite na qual o time de Aguirre jogou como se ainda estivesse sob o comando de Levir Culpi.
"Não poderia comemorar". "Seria um contrassenso…" Mas eu vou, sim, agradecer pela tunda. Para mim, não haveria melhor momento para a equipe e torcida atleticanas encararem um revés: quando não vale nada. E ainda mais para o Flamengo, time que sempre nos salta a veia no pescoço, cuja vitória é sempre contabilizada como boleto da parcela da vingança eterna.
Perder para o urubu em casa serviu para revelar-nos a distância que estamos da performance necessária para arrebanhar os títulos que disputaremos. O Flamengo foi o nosso “memento mori”, fez-nos ver que, apesar da imortalidade do Atlético, o time atual ainda é composto por meros mortais. O time alvinegro é o mesmo em nomes, posicionamento e atitude que terminou 2015, num espetáculo revisto diversas vezes em 5 atos: 1. uma vontade viceral de vencer nos primeiros 15 minutos de jogo; 2. a tentativa marota de jogo cadenciado, com direito a toquinhos de calcanhar, até o término do primeiro tempo; 3. a volta displicente depois do intervalo; 4. o gol sofrido num contra-ataque resultado da subida kamikaze de toda a linha defensiva; 5. o desespero seguido de prostração por não encontrarem o caminho da virada.
2015 ainda vive! Diferente dos dois anos anteriores, quando, não importando o resultado, o Galo não se prostrava - Corinthians do Mano e Flamengo do Penido que o digam -, o ano passado nos reservou alguns times, como Santos, Sport e São Paulo, sapecando no nosso lombo com requintes de crueldade. Dentro de campo, os mesmos 5 atos descritos acima.
A reflexão que a derrota dessa quarta traz é: o que tínhamos em 2013/2014 e que não tivemos em 2015? Essa ausência continua para 2016?
Casco na meia cancha, meu amigo. Tínhamos jogadores cascudos que participavam do jogo na construção das jogadas, que chamavam a responsa: Ronaldinho Gaúcho (!) e Diego Tardelli; Guilherme, quando estava fora do departamento médico. Hoje, temos Giovanni Augusto, Dátolo e Dodô, atletas de muito potencial, mas ainda sem a mesma tarimba dos antecessores. O argentino alterna seus momentos, com golaços e atuações apagadas. Giovanni é mais regular: perde gols feitos recorrentemente.
Há que se dar tempo pra Aguirre compor um novo modus operandi para a equipe. Tempo para que Giovanni Augusto, Dátolo, Dodô e Cazares se encontrem neste modelo de jogo e produzam mais e melhor. Pratto, que é muito mais habilidoso que Jô, tem muito a oferecer ao time. Mas precisa que a jogada chegue até ele. É quase desumano esperar que o Urso desarme na meiuca, puxe o contra-ataque e finalize. Se bem que é quase isso o que ele tem feito. Chamarão o Ibama para o Galo.
Mas, dessa vez, o Ibama não autuará o Atlético pelos maus tratos ao urubu. Diferente dos últimos anos, não escalpelamos o pobre coitado. Foi melhor assim. Ele nos ajudou a chegar mais conscientes à Libertadores. Consciência que pode gerar mudanças e fortalezas. Nós o ajudamos a chegar mais confiantes para a disputa do… do… do campeonato carioca.
